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Vacina 100% brasileira contra a dengue começa a ser aplicada pelo SUS em todos os estados

Butantan-DV é a primeira vacina de dose única contra a dengue no mundo; estratégia começa por 1,2 milhão de profissionais de saúde da linha de frente

Rafael Mendes 🕐 9 min de leitura 03/03/2026
Profissional de saúde sendo vacinado contra a dengue

O Brasil alcançou um marco histórico na saúde pública: a Butantan-DV, primeira vacina de dose única contra a dengue no mundo, começou a ser aplicada pelo Sistema Único de Saúde (SUS) em todos os 26 estados e no Distrito Federal. O imunizante, 100% nacional, desenvolvido pelo Instituto Butantan ao longo de mais de duas décadas de pesquisa, representa um avanço sem precedentes na autonomia sanitária brasileira.

Quem está sendo vacinado agora

A estratégia inicial prioriza 1,2 milhão de profissionais de saúde da Atenção Primária — a linha de frente do SUS. As primeiras 650 mil doses já foram distribuídas aos estados, com o restante previsto para as próximas semanas.

O público-alvo nesta primeira fase inclui:

  • Profissionais assistenciais: médicos, enfermeiros, técnicos de enfermagem, odontólogos e equipes multiprofissionais
  • Agentes de campo: agentes comunitários de saúde (ACS) e agentes de combate às endemias (ACE)
  • Trabalhadores de apoio: recepcionistas, seguranças, profissionais de limpeza, motoristas de ambulância e cozinheiros das UBS
A vacinação está começando por toda a equipe multiprofissional cadastrada no SUS. São aquelas pessoas que batem na porta, visitam a casa das pessoas, observam se tem criadouro do mosquito da dengue — Alexandre Padilha, Ministro da Saúde.

A vacina: eficácia e diferenciais

A Butantan-DV foi aprovada pela Anvisa em 26 de novembro de 2025 após cinco anos de acompanhamento dos voluntários do ensaio clínico de fase 3, que envolveu mais de 16 mil participantes em 14 estados brasileiros. Os resultados são expressivos:

  • 74,7% de eficácia geral contra dengue sintomática em pessoas de 12 a 59 anos
  • 91,6% de eficácia contra dengue grave e com sinais de alarme
  • 100% de eficácia contra hospitalizações por dengue
  • Proteção contra todos os 4 sorotipos do vírus da dengue
  • Eficaz tanto em quem já teve dengue quanto em quem nunca foi infectado (soronegativo)

Os resultados foram publicados em duas das mais prestigiadas revistas científicas do mundo: o The New England Journal of Medicine (NEJM) e o The Lancet Infectious Diseases.

É um feito histórico para a ciência e a saúde do Brasil. Uma doença que nos aflige há décadas agora poderá ser enfrentada com uma arma muito poderosa: a vacina em dose única do Instituto Butantan — Esper Kallás, Diretor do Instituto Butantan.

Por que dose única importa

A Butantan-DV é a primeira vacina contra a dengue do mundo que exige apenas uma dose. Isso representa uma vantagem logística e de adesão fundamental: estudos publicados na Human Vaccines & Immunotherapeutics demonstram que programas de imunização com menos doses estão associados a melhor cobertura vacinal.

A outra vacina contra a dengue disponível no SUS — do laboratório japonês Takeda (Qdenga) — exige duas doses e é indicada para adolescentes de 10 a 14 anos. Desde sua incorporação em 2024, foram distribuídas 11,1 milhões de doses e aplicadas 7,8 milhões.

Municípios-piloto: vacinação ampliada

Paralelamente à vacinação dos profissionais de saúde, o Ministério da Saúde iniciou uma estratégia-piloto em três municípios para avaliar o impacto do imunizante na dinâmica populacional da dengue:

  • Botucatu (SP)
  • Maranguape (CE)
  • Nova Lima (MG)

Nessas localidades, o público-alvo é mais amplo: adolescentes e adultos de 15 a 59 anos. Os dados coletados ajudarão a definir a estratégia nacional de ampliação.

Cronograma de ampliação

A vacinação da população em geral está prevista para o segundo semestre de 2026, começando pelas faixas etárias mais velhas (a partir de 59 anos) com ampliação gradual até o público de 15 anos.

A expansão depende do aumento da capacidade produtiva. Uma parceria entre o Instituto Butantan e a empresa chinesa WuXi Vaccines permitirá ampliar a produção em até 30 vezes, com previsão de entregar aproximadamente 30 milhões de doses no segundo semestre de 2026.

O Instituto Butantan também pretende ampliar a faixa etária da vacina para idosos de 60 a 79 anos e crianças de 2 a 11 anos, com estudos clínicos já em andamento.

Investimento e soberania sanitária

O desenvolvimento da vacina contou com investimentos significativos:

  • R$ 130 milhões do BNDES para o desenvolvimento
  • R$ 1,3 bilhão do Novo PAC Saúde para reforma e construção de 4 fábricas do Butantan
  • R$ 368 milhões para a compra das primeiras 3,9 milhões de doses pelo Ministério da Saúde

O Governo de São Paulo antecipou a entrega de 1,3 milhão de doses ao Ministério da Saúde durante a celebração dos 125 anos do Instituto Butantan, em 23 de fevereiro de 2026.

Cenário epidemiológico da dengue

A vacinação chega em um momento estratégico. Embora os casos de dengue tenham caído 74% em 2025 em relação a 2024, os números ainda são expressivos:

  • 2024: 6,5 milhões de casos prováveis e 6,3 mil mortes — o pior ano da história
  • 2025: 1,7 milhão de casos e 1,7 mil mortes — queda de 74% e 72%, respectivamente
  • Desde 2000: mais de 20 milhões de brasileiros foram acometidos pela doença

O Ministério da Saúde reforça que a vacinação se soma às ações de controle vetorial — a eliminação dos criadouros do mosquito Aedes aegypti continua sendo a principal forma de combate à dengue, chikungunya e Zika.

Segurança da vacina

Nos ensaios clínicos, a maioria das reações adversas foi leve a moderada. As mais comuns foram dor e vermelhidão no local da injeção, dor de cabeça e fadiga. Eventos adversos sérios relacionados à vacina foram raros e todos os participantes se recuperaram completamente.

Fontes: Ministério da Saúde — gov.br (10/02/2026); Instituto Butantan (26/11/2025 e 23/02/2026); Anvisa; Governo do Estado de São Paulo — Agência SP; The New England Journal of Medicine; The Lancet Infectious Diseases. Conteúdo revisado conforme os protocolos do Ministério da Saúde/SBIm.

✅ Conteúdo revisado conforme os protocolos do Ministério da Saúde e da Sociedade Brasileira de Imunizações (SBIm).