A vacina contra herpes-zóster — doença popularmente conhecida como cobreiro — está no centro de um dos debates mais importantes da saúde pública brasileira em 2026. Enquanto o Ministério da Saúde busca viabilizar a incorporação do imunizante ao SUS, o Senado Federal aprovou um projeto de lei que pode acelerar esse processo.
O que aconteceu no Senado
Em 25 de fevereiro de 2026, a Comissão de Direitos Humanos (CDH) do Senado aprovou o PL 4.426/2025, de autoria da senadora Dra. Eudócia (PL-AL), que determina a inclusão da vacina contra herpes-zóster no calendário vacinal do SUS. O projeto segue agora para a Comissão de Assuntos Sociais (CAS).
A proposta prevê que o imunizante seja oferecido a pessoas com mais de 50 anos e a maiores de 18 anos com comprometimento do sistema imunológico. A relatora, senadora Mara Gabrilli (PSD-SP), alertou que o impacto individual e sistêmico da doença tende a crescer diante do envelhecimento populacional brasileiro.
Por que a Conitec barrou a vacina em janeiro
Em 13 de janeiro de 2026, o Ministério da Saúde publicou no Diário Oficial a decisão de não incorporar a vacina contra herpes-zóster ao SUS. A decisão foi tomada pela Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no SUS (Conitec), após análise técnica.
O principal motivo foi o alto custo: o impacto orçamentário estimado superava R$ 5,2 bilhões em cinco anos apenas para o público acima de 80 anos e imunocomprometidos. Para toda a população acima de 50 anos — mais de 60 milhões de brasileiros —, o custo chegaria a aproximadamente R$ 50 bilhões, cerca de dez vezes o investimento anual do programa Farmácia Popular.
Quando se trata da incorporação de uma vacina ao SUS, estamos falando de uma política pública voltada a dezenas de milhões de pessoas. O Ministério da Saúde tem interesse em incorporar a vacina contra a herpes-zóster e seguirá negociando com os produtores — Alexandre Padilha, Ministro da Saúde.
A fabricante havia oferecido apenas 1,5 milhão de doses por ano, quantidade insuficiente até mesmo para o grupo acima de 80 anos.
O que é a vacina e por que ela importa
A vacina avaliada é do tipo recombinante adjuvada (Shingrix), considerada um grande avanço em relação às versões anteriores. Enquanto vacinas mais antigas tinham eficácia de 50% a 60%, a versão recombinante alcança cerca de 90% de eficácia, independentemente da idade do paciente.
A vacina recombinante mudou esse cenário: ela tem eficácia em torno de 90%, independentemente da idade, inclusive no idoso — Renato Kfouri, infectologista e vice-presidente da SBIm.
O esquema vacinal consiste em duas doses com intervalo de 2 a 6 meses. Na rede privada, cada dose custa entre R$ 900 e R$ 1.200, totalizando até R$ 2.400 o esquema completo.
O que é herpes-zóster
O herpes-zóster é causado pela reativação do vírus varicela-zóster (VVZ), o mesmo responsável pela catapora. Após a infecção inicial na infância, o vírus permanece latente no organismo e pode reativar décadas depois, especialmente com o envelhecimento ou queda da imunidade.
A doença causa erupções dolorosas na pele e pode evoluir para neuralgia pós-herpética — uma dor crônica intensa que pode durar meses ou até anos. Em idosos e imunocomprometidos, o quadro pode ser grave.
Estudos mostram benefícios além da prevenção da doença
Pesquisas recentes têm revelado benefícios indiretos surpreendentes da vacinação contra herpes-zóster:
- Redução de eventos cardiovasculares: Uma meta-análise apresentada no Congresso Europeu de Cardiologia (2025), com dados de 19 estudos em quase duas décadas, observou redução de até 18% na incidência de infarto e AVC entre vacinados.
- Menor incidência de demência: Estudo publicado na revista Nature, com mais de 280 mil adultos no Reino Unido, encontrou menor frequência de novos diagnósticos de demência entre pessoas vacinadas ao longo de 7 anos de acompanhamento.
O herpes-zóster é uma doença inflamatória, e sabemos que inflamação repetida ao longo dos anos pode contribuir para outros desfechos de saúde. Prevenir a reativação do vírus pode ter impactos que vão além da doença em si — Renato Kfouri, SBIm.
Próximos passos
O projeto de lei segue para análise na CAS do Senado. Paralelamente, o Ministério da Saúde afirmou que continua negociando com a fabricante para buscar um preço sustentável e uma oferta de doses em escala compatível com as necessidades do SUS.
O tema ganha relevância adicional diante do envelhecimento acelerado da população brasileira: segundo o IBGE, o país terá mais de 70 milhões de pessoas acima de 50 anos em 2030.
Fontes: Senado Federal — Agência Senado (02/03/2026); G1/Globo (13/01/2026); Ministério da Saúde — gov.br (21/01/2026); SBIm; Nature; Congresso Europeu de Cardiologia. Conteúdo revisado conforme os protocolos do Ministério da Saúde/SBIm.
